Calhou de estar um dia à entrada de Góis. Já passava das nove horas e um enorme fluxo de carros vinha na direcção da vila. Seria algum evento que iria acontecer? Não, eram os funcionários da Câmara e de outras instituições que vivem fora do concelho...
Góis de facto é um local excelente para trabalhar, pois oferece emprego e condições. Pena é que a maioria dos técnicos superiores das principais instituições não viva no concelho. Góis pelos vistos não lhes oferece as condições de vida que eles desejam.
Nada me move contra estas pessoas, nem contra as suas opções. Todos somos livres de viver onde quisermos.Mas podemos exigir que pelo menos estas pessoas contribuam em termos de cidadania, participando nas organizações locais ou nos eventos aos fins-de-semana. E acredito que quando não temos em casa, temos que ir buscar fora os recursos humanos para promover o desenvolvimento. Mas o COMBATE DESERTIFICAÇÃO faz-se com outro tipo de políticas:
- incentivando a fixação de pessoas naturais do concelho e de outros concelhos no nosso, premiando as competências técnicas e não apenas o cartão do partido político ou o local de nascimento do cartão de cidadão;
-Promovendo políticas de fixação de empresas, como a criação do gabinete apoio ao investidor, a incubadora de empresas, as zonas industriais na periferia do concelho, entre outras;
- Tendo uma estratégia coordenada ao nível urbanístico - ter zonas de construção para jovens a custos controlados, possuir um PDM actualizado, moderno e inovador, ser mais rigoroso com os prédios rústicos e urbanos abandonados;
- Ter uma política estruturada para atrair emigrantes naturais de Góis, quer estejam no estrangeiro ou em Lisboa. Existem muitas pessoas que estão fora e que caso existisse uma política orientada para promover o seu regresso, podiam ser convencidas a voltar para ajudar a sua terra natal. Temos de fixar no nosso concelho pessoas que gostem de viver no interior e que sintam Góis;
- Incentivar uma nova cidadania, alicerçada na estratégia da Agenda 21 Local, extra-partidária, unificadora da sociedade e que se oriente para as camadas mais jovens, promovendo políticas sustentáveis ambiental, cultural, económicas e socialmente;
- Ter uma visão estratégica nas três áreas fundamentais do desenvolvimento local: ambiente floresta e turismo. Ao nível do ambiente desenvolver a criação da Reserva Natural Municipal dos Penedos de Góis (na área da Rede Natura 2000)e inventariar o património do Vale do Ceira entre o Colmeal e a Várzea com vista a uma candidatura futura. Nesta area é possível criar dezenas de postos de trabalho, com a vigilância e monitorização dos futuros visitantes destas zonas. Ao nível da floresta motivando a plantação das espécies autóctones, as explorações em multi-cultura, a criação de actividades económicas a montante e jusante da exploração florestal(pequenas industrias de madeiras, marcenaria e mobiliário, aproveitamento de resíduos florestais como acontece nos concelhos vizinhos). Ao nível do turismo, atraindo novas unidades turísticas (alojamento, restauração e animação), ter um calendário diversificado e intenso de eventos ao longo que atraia visitantes e turistas, montar sistemas de apoio às visitações ( museus, núcleos museológicos, leitores de património, rotas marcadas, etc)
Os técnicos superiores das principais instituições do concelho são a massa crítica de Góis. se a maioria deles vive fora, não temos massa crítica local para desenvolver o concelho e para promover a cidadania.
Todos conhecemos as dificuldades em elaborar listas de gestão das instituições da sociedade civil, por falta dessa mesma massa crítica e pela excessiva politização destes órgãos. valorizo aqueles que ao longo dos anos, mesmo residindo fora, muito fizeram pelo concelho, mesmo fora do seu horário de trabalho. Não querendo ser injusto por omitir alguns, não posso deixar de destacar dois: Lurdes Castanheira e Miguel Ventura. Abomino aqueles que só cá vêm das 9h (em ponto) às 17h (sendo que meia-hora antes já têm tudo arrumado e o carro pronto para arrancar. Durante anos cometera-se grandes erros na contratação de pessoas e os resultados são visíveis hoje, daí que pense que também aqui é fundamental mudar de estratégia, deixando de apostar em exclusivo no funcionalismo público e procurando outras soluções, como por exemplo a criação:
-De um,a agencia de desenvolvimento com capitais mistos da autarquia e de particulares. Esta agencia seria responsável pela criação de receitas próprias para realização dos investimentos necessários
- De empresas municipais/ou gabinetes técnicos nas áreas mais importantes e sensíveis ou estabelecimento de protocolos com entidades privadas para a prossecução dos objectivos dessas áreas prioritárias.
Estas estruturas são mais flexíveis e têm outros modelos de gestão que permitem atingir melhores resultados no desenvolvimento local.
Se Góis oferece tão boas condições de trabalho a estas pessoas, se não as podemos convencer a mudar de residência, podemos incentivar a que tenham uma postura mais pro-activa: em vez de serem funcionários públicos no sentido estrito da palavra, sejam antes agentes de desenvolvimento. Se Góis é bom para estas pessoas, elas têm de contribuir para que seja bom também para os que cá vivem e pagam os impostos...
Assim Góis poderia ser uma grande metrópole do século XXI e não apenas pelo fluxo de viaturas às 9 e às 17horas.
Góis, 4 de Dezembro de "2010
in, O Varzeense, 15/12/10

